Posts

Sobrevivência

Image
Tanto fez que acabou por se despir dos sonhos.Jogou velhas fotografias fora e amparou-se numa espécie de ferramenta fundamental pra sobrevivência.Não queria mais  se atirar no vazio dos encontros solitários.Deveria cumprir a sentença:não contaminar-se por antigas recordações.Era uma pena imposta pela vida.De agora em diante buscaria uma nova forma de viver.Abraçando intensamente o que acontece hoje.

Vida em guerra

Image
É estranho ver a dor assim como um ferro que fere a quem nunca feriu.Por perpertuar-se bem junto aos inocentes ela clama por súplicas.Então supliquemos.Não há outro remédio senão engolir todo esse amargor da realidade.Pedaço por pedaço o corpo se desfaz.A vaidade não faz mais morada.E o que era doce vira amargo. Prisão sem portas.A vida muitas vezes nos cobra decisões.Somos fracos ou fortes ? Guerreiros que lutam sem conhecer o inimigo.No escuro da incerteza: há de sobriver quem não queimou toda a sua munição.

Conselho bom

Image
Liberdade assim nem se fala.Porque se espalha sem rumo e depois não sabe voltar.Pode transformar-se em prisão.Eu era assim como você.Moço fino e trabalhador que esmerou-se no trabalho e desencantou-se com tudo.Mas encontrei um porto seguro que fez  romper com os muros.E hoje vivo sem direção.Ora pra um lado ora para outro.Mas ora veja ainda tenho sangue correndo nas veias.E profeticamente te digo.Não segue os meus passos mas pode repensar minhas palavras.Conselho quase sempre não se paga mas a dívida pode aumentar.Se meu conselho te bem servir sirva-se dele e recomece porque somente o recomeçar faz com que as historias desse mundão valham a pena de verdade.

Apenas lembranças

Image
Por tanto tempo essa paisagem era a única referência que guardava.Um riacho correndo e adentrando pela floresta.E logo na frente havia um córrego que desaguava e um lugar qualquer.Parece mesmo coisa de mulherzinha que prefere as datas festivas,marca encontros na luz do luar somente para tentar guardar para sempre.Paisagens passam e acabam por fundirem-se com outros tantos pensamentos.Mas do instante fotografado lembro do cheiro.Marca que ninguém pode apagar do olfativo desejo de ser aquela que ficou.

Tempo e brilho

Image
"É assim que imagino Deus, como um fino fio de nylon, invísivel, que procura minhas contas no fundo do mar e as devolve a mim como um colar" Rubem Alves Por que os retratos estão perdendo a nitidez e o brilho e mesmo assim ela pensa que dança como outrora? Seu corpo não tem nem um oitavo da flexibilidade,mas rezaria mil terços para tê-lo novamente.Fluindo livre liberto do peso do tempo.Sua canção sempre tocava nas horas mais sensíveis do dia.Naqueles momentos quando todos dormiam e ela se encontrava perdida entre o espelho e o fechar dos seus olhos.E então ela trancava-se no quarto e tocava em seu piano a mesma música.Seus dedos deslizavam harmoniosamente pelas teclas.Verdades e mentiras viam-lhe nesses momentos raros de compaixão.O resto do dia ela procurava pensar no mundo que girava rapidamente a sua volta.Esquecendo a amarga realidade.Envelheceu muito mais do que as fotografias.Perdeu o brilho e a nitidez que cultivava em seus sonhos de menina.

Sem cor

Image
Fechou a cortina e saiu.Nem olhou pra trás.Deixou apenas algumas roupas e fotografias,inúmeras fotografias em preto e branco. A porta estava entreaberta como de costume aos que partem sem querer chamar atenção. Entre as roupas,algumas ainda guardavam o seu cheiro e um certo amassado da mala.Muitas vezes ensaiou essa partida,mas voltou atrás.Porque ela chorou e abraçou o seu corpo como se fosse sua dona.E num gesto inexpressivo de tanto faz como tanto fez:permaneceu.Nunca nada o fez feliz.Nem nas cenas mais surpreendentes ele mantinha-se frio e até apático.O brilho da vida não o acompanhava.O colorido do amor e das emoções que no instante primeiro aconteceram não ficaram nem ao menos nas fotografias.

Apego

Image
Jogava fora a metade dos guardados e a outra metade guardava novamente.Essa arrumação era interminável. Por que não conseguia desfazer-se de alguém que a magoava tanto? Talvez conservava ainda o gosto delicioso de quando acreditava de olhos fechados .Parece prisão sem porta,cadeado largado em cima da mesa,mas o medo de libertar-se era tão real.Dóia como a agonia precedente ao ato insano.Marcas,cicatrizes,zelos do passado que insistem em ficar.Permacer seria então para ela uma espécie de limite indevido,ou ausência dele.Estabeleceu-se naquele relacionamento uma comunhão carnal que não dava-lhe mais prazer.Uma insinuante coragem aproxima-se de quando em vez dela.Feito estranha madrasta com o remédio amargo.Não queria tomar,mas precisava.Qual seria a dosagem? Homeopaticamente não resolveria.Teria que ser de uma só tacada.

Fim da linha

Image
Uma noite sombria para Brigite.Com tantos artefatos e jóias valiosas,ela percebeu a intensidade da sua fraqueza.Tudo girava ao seu redor para o lado oposto aos seus sonhos.A essa altura,Deborah e Alex estariam bem longe,em viagem de nupcias.E para todos os efeitos, ela deveria acordar bem disposta para participar de uma importante reunião matinal em sua empresa.Hora infeliz,manhã sem brilho,nada tinha mais razão de ser na vida dela.Os barulhentos carros na avenida principal ecoavam em seus ouvidos como sinais evidentes de civilização, há vida fora de seu apartamento.Queria tanto ser outra pessoa, olhar no espelho e não ter que se encarar.Não ser mais a outra na vida de Alex.Dar um basta ,viver uma história verdadeiramente sua.Agarrou-se então ao seu travesseiro e chorou como uma criança que perde um brinquedo de estimação.Enxugou as quentes lágrimas e falou pra si mesma:a vida continua.

A herança maldita

Image
Sobre a ponte eu estava, Há dias, na noite cinzenta Ao longe ouvi uma canção: Será que alguém a escutou? Nietzsche Sobrecarregado pelas obrigações da vida,afinal de contas,era ainda pequeno e mal sabia o peso que o mundo já colocava em seus ombros.Enfrentava os trovões e as tempestades,sem nem conhecer um dia lindo de sol.David acreditava que a vida sempre estaria sim,nublada e irremediavelmente contra ele.Seu corpo estava preso a elos e heranças familiares que nem sabia de onde vieram.Sua mãe o abandonara ainda bebê na porta de uma maternidade no Sul do país,em pleno inverno de 1972,e ele fora adotado por um casal de fazendeiros.Que o maltratava e o insultava o mais que podiam,até porque eram rudes .Estava agora com mais de trinta anos,e nada fizera de importante na sua vida,além de cuidar das terras do falso pai e da insuportável mãe,que morreram num acidente de trem numa viagem ao interior.Nessa mesma semana,David tratou de guardar os trapos que usava em uma bolsa im...

Projetos

Image
Joana queria ser o que seu pai sempre sonhou: professora do Instituto de Educação,seria como realizar-se através do sonho do pai.Uma forma de agradá-lo.Estudou por vários anos para conseguir a almejada profissão.Mas a vida fez umas armadilhas para aquela quase menina,que virou sem saber ,mulher e sem querer,mãe.E tudo ficou guardado entre papéis ,fraldas,escritos e outras caixas que nunca eram remexidas,ela também depositou seus ideais,esperando por um tempo mais propício para executá-los. Queria ser psicóloga,decoradora e escritora .Por vezes até duvidava se esse tempo chegaria. Então a mesma roda da vida girou uma vez mais,e ela se viu sozinha com o filho,sem condições,sem esperanças,mas com muita coragem.E essa mesma coragem ela utilizou para conquistar um espaço,mudar de profissão,tentar alternativas outras,que a fez avançar financeiramente,mas a limitou na sua área de conhecimentos,porque a então mulher,já quase madura,parou no tempo,investiu muito pouco em si mesma.Cuidou de m...

Conto do tempo real

Image
Ele carregava um relógio no lugar do coração.Sentimentos não existiam. Tudo deveria ser cronometrado,e completamente relacionado aos resultados. Eram os fins justificando os meios.E aquela moça era acostumada a mimos,galanteios, e tudo que envolvessem gestos desembaraçados,alheios mesmos àquelas preocupações mundanas.

Leitura do dia a dia

Image
"A maior ameaça que um artista enfrenta é a obscuridade, não a pirataria. Não me preocupo com as pessoas que lêem meu trabalho sem pagar. Preocupo-me com as que não sabem que meus livros existem ". ( Tim O’Reilly- editor americano) Todos os dias me deparo com a ânsia de ler...não como um movimento desesperado, impensado ou absurdo, mas como um ritmo salutar, que me permite conviver, reviver, transcender ,e muitas vezes interferir nos letárgicos instrumentos de convivências.Pessoas com suas atitudes patéticas, que brincam de viver, arriscando os seus dias, com gestos impensados;outras paralisadas em suas rotineiras formas de viver, e bem poucas avançando, ou pelo menos fazendo algo pra que a sua evolução aconteça.E nesses momentos eu recorro aos livros, lendo um pouco sobre o sofrimento de Ana Terra, onde Érico Veríssimo, relata fielmente a dor da solidão e o insuportável gosto de viver sem alternativas, apenas contentando-se com o pouco que lhe aparece.E reajo ao sof...

Maria rendeira

"Quantas vezes a vida nos revela que a saudade da pessoa amada,é bem melhor que a presença dela". Mario Quintana. Quantas e quantas noites Maria passou acordada esperando o seu amado. Que numa tarde de outono pegou seu barco e entrou mar a dentro. Então Maria resolveu tecer uma colcha de renda.Para o tempo passar mais depressa e a saudade doer mais devagar. Eram pontos e mais pontos e a dor da solidão se escondia no rendar. O povo não a via mais nas ruas.Seu rosto não era mais feliz. Sorriso há muito não dava mais.Luz do olhar se apagou.Vida toda sem brilho. As crianças não queriam mais dela se aproximar.Os amigos se afastaram todos e outros tantos a chamavam agora de Maria rendeira.Maria que rendava pra esquecer um grande amor.Maria que rendava pra ocultar a intensa dor.Anos e anos se passaram.Fios feitos remendados e desfeitos pra serem recomeçados.A colcha era tão igual aquela saudade.Não terminava nunca.Fazia que acabava e começava d...

Ritual

Image
O som vinha daquele quarto. Que se localizava no nono andar de um prédio antigo na zona Sul do Rio de Janeiro.Um suave som de sax invadia os apartamentos vizinhos .Alguns já estavam até habituados com o horário em que a música começava.Quatro da tarde, pontualmente.O clima contagiante do som transmitia uma enorme paz a todos. Tarde de outono. Muito fria e com forte vento.Brigite convidou uma amiga para um chá em sua cobertura.Quase chegada a hora do maravilhoso som.Que transbordava por toda parte.Suave e intensamente começaram a tocar o sax.E as duas ouviam extasiadas aquela melodia.Quem tocaria com tanto sentimento? E por que a mesma canção no mesmo horário todos os dias, religiosamente?O prédio de Brigite situava-se na mesma direção daquele misterioso prédio.Só podia vir daquele apartamento com a janela entre aberta.Curiosas , as amigas se dirigiram a portaria do mesmo, indagando ao porteiro sobre o som e o autor ou autora daquele espetáculo vespertino.O porteiro um senhor muito ...