Wednesday, June 17, 2009

Fim da linha


















Uma noite sombria para Brigite.Com tantos artefatos e jóias valiosas,ela percebeu a intensidade da sua fraqueza.Tudo girava ao seu redor para o lado oposto aos seus sonhos.A essa altura,Deborah e Alex estariam bem longe,em viagem de nupcias.E para todos os efeitos, ela deveria acordar bem disposta para participar de uma importante reunião matinal em sua empresa.Hora infeliz,manhã sem brilho,nada tinha mais razão de ser na vida dela.Os barulhentos carros na avenida principal ecoavam em seus ouvidos como sinais evidentes de civilização, há vida fora de seu apartamento.Queria tanto ser outra pessoa, olhar no espelho e não ter que se encarar.Não ser mais a outra na vida de Alex.Dar um basta ,viver uma história verdadeiramente sua.Agarrou-se então ao seu travesseiro e chorou como uma criança que perde um brinquedo de estimação.Enxugou as quentes lágrimas e falou pra si mesma:a vida continua.

Sunday, May 17, 2009

A herança maldita

Sobre a ponte eu estava,
Há dias, na noite cinzenta
Ao longe ouvi uma canção:
Será que alguém a escutou?
Nietzsche



Sobrecarregado pelas obrigações da vida,afinal de contas,era ainda pequeno e mal sabia o peso que o mundo já colocava em seus ombros.Enfrentava os trovões e as tempestades,sem nem conhecer um dia lindo de sol.David acreditava que a vida sempre estaria sim,nublada e irremediavelmente contra ele.Seu corpo estava preso a elos e heranças familiares que nem sabia de onde vieram.Sua mãe o abandonara ainda bebê na porta de uma maternidade no Sul do país,em pleno inverno de 1972,e ele fora adotado por um casal de fazendeiros.Que o maltratava e o insultava o mais que podiam,até porque eram rudes .Estava agora com mais de trinta anos,e nada fizera de importante na sua vida,além de cuidar das terras do falso pai e da insuportável mãe,que morreram num acidente de trem numa viagem ao interior.Nessa mesma semana,David tratou de guardar os trapos que usava em uma bolsa improvisada e rumou para estação rodoviária daquela pacata cidade.Com poucas notas de dinheiro no bolso,rumou sem olhar para trás.O tabelião o procuraria dias depois,para oferecer-lhe um farta herança.Mas daquele passadode dor e sofrimento, o triste David só queria mesmo: distância.

Tuesday, May 12, 2009

Projetos


Joana queria ser o que seu pai sempre sonhou: professora do Instituto de Educação,seria como realizar-se através do sonho do pai.Uma forma de agradá-lo.Estudou por vários anos para conseguir a almejada profissão.Mas a vida fez umas armadilhas para aquela quase menina,que virou sem saber ,mulher e sem querer,mãe.E tudo ficou guardado entre papéis ,fraldas,escritos e outras caixas que nunca eram remexidas,ela também depositou seus ideais,esperando por um tempo mais propício para executá-los.Queria ser psicóloga,decoradora e escritora.Por vezes até duvidava se esse tempo chegaria.
Então a mesma roda da vida girou uma vez mais,e ela se viu sozinha com o filho,sem condições,sem esperanças,mas com muita coragem.E essa mesma coragem ela utilizou para conquistar um espaço,mudar de profissão,tentar alternativas outras,que a fez avançar financeiramente,mas a limitou na sua área de conhecimentos,porque a então mulher,já quase madura,parou no tempo,investiu muito pouco em si mesma.Cuidou de melhorar as condições do filho,que um dia falou para ela,que ela não chegaria a lugar nenhum,e que hoje nem a procura mais.Passou o dia das mães como se fosse um estranho no mesmo ambiente que ela.E ela tratou de retornar para casa chorando,com uma sensação de nada ter feito,e hoje viver por viver: sem projetos.

Friday, May 01, 2009

Conto do tempo real



Ele carregava um relógio no lugar do coração.Sentimentos não existiam.

Tudo deveria ser cronometrado,e completamente relacionado aos resultados.
Eram os fins justificando os meios.E aquela moça era acostumada a mimos,galanteios,
e tudo que envolvessem gestos desembaraçados,alheios mesmos àquelas preocupações mundanas.

Sunday, January 04, 2009

Leitura do dia a dia





"A maior ameaça que um artista enfrenta é a obscuridade, não a pirataria. Não me preocupo com as pessoas que lêem meu trabalho sem pagar. Preocupo-me com as que não sabem que meus livros existem
". ( Tim O’Reilly- editor americano)



Todos os dias me deparo com a ânsia de ler...não como um movimento desesperado, impensado ou absurdo, mas como um ritmo salutar, que me permite conviver, reviver, transcender ,e muitas vezes interferir nos letárgicos instrumentos de convivências.Pessoas com suas atitudes patéticas, que brincam de viver, arriscando os seus dias, com gestos impensados;outras paralisadas em suas rotineiras formas de viver, e bem poucas avançando, ou pelo menos fazendo algo pra que a sua evolução aconteça.E nesses momentos eu recorro aos livros, lendo um pouco sobre o sofrimento de Ana Terra, onde Érico Veríssimo, relata fielmente a dor da solidão e o insuportável gosto de viver sem alternativas, apenas contentando-se com o pouco que lhe aparece.E reajo ao sofrimento da personagem, fazendo brotarem alternativas na minha vida. Mergulho então, nos Poemas Rupestres de Manoel de Barros, resgatando a menina que há em mim, adormecida,que tem a ternura e o encanto de construir e desconstruir seus próprios castelos, refazendo assim a sua própria história. E a leitura, passa então a ser um lenitivo,um abrandar de relatos obscuros que me chegam todos os dias, pelas portas , janelas, televisões ou jornais. E os olhinhos de gato, que Cecília Meireles adquire me permitem enxergar além dos fatos, por entre a forma efêmera da vida e o eternizar das emoções que divagam entre as linhas do envolvente livro.