Saturday, November 18, 2006

Maria rendeira

"Quantas vezes a vida nos
revela que a saudade
da pessoa amada,é bem
melhor que a presença dela".
Mario Quintana.

Quantas e quantas noites Maria passou acordada esperando o seu amado.
Que numa tarde de outono pegou seu barco e entrou mar a dentro.
Então Maria resolveu tecer uma colcha de renda.Para o tempo passar mais
depressa
e a saudade doer mais devagar.
Eram pontos e mais pontos e a dor da solidão se escondia no rendar.
O povo não a via mais nas ruas.Seu rosto não era mais feliz.
Sorriso há muito não dava mais.Luz do olhar se apagou.Vida toda sem
brilho.
As crianças não queriam mais dela se aproximar.Os amigos se afastaram
todos
e outros tantos a chamavam agora de Maria rendeira.Maria que rendava
pra
esquecer um grande amor.Maria que rendava pra ocultar a intensa
dor.Anos e
anos se passaram.Fios
feitos remendados e desfeitos pra serem recomeçados.A colcha era tão
igual
aquela saudade.Não terminava nunca.Fazia que acabava e começava de
novo.Maria esquecera de si.Maria se perdera no vento da ilusão.Nem
percebera
que aquele amor não lhe bastava.Era tão pouco que mal lhe cabia no
abraço.Aquele homem que um dia se foi nunca havia feito dela uma mulher
de
verdade.Mas apenas uma Maria que cumpria ordens.Recebia xingamentos e
pouco
afeto.Uma Maria que não tinha vida própria e que quem sabe agora
terminar a
colcha e pela primeira vez tece a sua própria vida.

Wednesday, June 21, 2006

Ritual


O som vinha daquele quarto. Que se localizava no nono andar de um prédio antigo na zona Sul do Rio de Janeiro.Um suave som de sax invadia os apartamentos vizinhos .Alguns já estavam até
habituados com o horário em que a música começava.Quatro da tarde, pontualmente.O clima contagiante do som transmitia uma enorme paz a todos.
Tarde de outono. Muito fria e com forte vento.Brigite convidou uma amiga para um chá em sua
cobertura.Quase chegada a hora do maravilhoso som.Que transbordava por toda parte.Suave e
intensamente começaram a tocar o sax.E as duas ouviam extasiadas aquela melodia.Quem tocaria com tanto sentimento? E por que a mesma canção no mesmo horário todos os dias, religiosamente?O prédio de Brigite situava-se na mesma direção daquele misterioso prédio.Só podia vir daquele apartamento com a janela entre aberta.Curiosas , as amigas se dirigiram a portaria do
mesmo, indagando ao porteiro sobre o som e o autor ou autora daquele espetáculo vespertino.O porteiro um senhor muito simpático, ficou meio sem jeito com os questionamentos das duas.Confirmou que vinha mesmo daquele apartamento que elas apontavam.E que há mais de um ano a sinfonia era entoada por um jovem que ali residia.Seu nome era Charles.Ele sofrera um acidente de moto e ficara paraplégico e cego.E desde então,vivia confinado em seu quarto, no apartamento que dividia com seus pais.E que todas as tardes,no mesmo horário em que ocorrera
o seu acidente: seus olhos se enchiam de lágrimas e ele tocava a sua canção favorita.Como num ritual de despedida ou de encontro com a própria vida.